No Liceu do Funchal, há cinquenta anos, tudo estava hierarquizado e arrumadinho no seu lugar. O Reitor mandava na Escola, o vice-reitor velava pela disciplina, os professores ensinavam, os estudantes aprendiam e .... os contínuos, ah.... os contínuos, esses, mandavam, velavam pela disciplina e ainda ensinavam algumas coisas, do muito que tinham aprendido ao longo da vida.
Nunca entendi por que é que eram classificados como PESSOAL MENOR, mas sempre aceitei que chamássemos ao professor de Matemática o Camachinho, à professora de História, a Ana Leal, ao professor de Ciências, o Canedo, ao professor de todas as disciplinas, o Horácio Bento, contrapondo ao modo cerimonioso e respeitador, que, qualquer que fosse a circunstância e ocasião, ao referirmo-nos aos contínuos, fazíamos anteceder os seus nomes por um redondo e sonoro Senhor.
Eram eles: o Senhor Cró, que mandava nos Laboratórios, o Senhor Nóbrega,que mandava na Biblioteca, a Dona (ou seria Senhora Dona?) Conceição, que mandava no recreio das raparigas, o Senhor Mário, lá mandava no recreio do primeiro ciclo e o Senhor Plácido que mandava em todo o Pessoal Menor. Em linguagem Matemática diria que o Senhor Plácido era Máximo dos Mínimos.
Embora pertencendo à equipa do Pessoal Menor, mas recusando o tratamento senhorial, havia mais um, o Jorge. O Jorge que, teoricamente, mandaria no recreio dos mais velhos, na prática não mandava em nada, não se importava que o tratássemos por tu e, muito menos, que o tratássemos pela alcunha "O Pele e Osso". Para nós, o Jorge, embora pertencendo à equipa do Pessoal Menor, era de facto o Maior. Ele emprestava-nos dinheiro, ele emprestava a bola para jogarmos futebol, ele comprava e vendia os nossos livros usados, ele mesmo, qual Mecenas, financiou e suportou a equipa de futebol B do Liceu. Única condição, o equipamento ser azul e amarelo, as cores do seu clube de coração, o União da Madeira.
O Jorge, faleceu em 1960.
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