Este blog que nasceu a pretexto das comemorações dos 50 anos de despedida do Liceu, foi encerrado há já sete anos, uma vez que a(s) Festa(s) tinha(m) acabado.
De então para cá, entre jantares, viagens, convívios, juntaram-se aos "setimanistas ausentes para sempre" (aqueles que já não tiveram a oportunidade e a felicidade de comemorar e estarem presentes nas tais festas) os nomes de:
Guida Garton
Guida Mendes
Manuela Drumond
Maria do Carmo Almeida
Josef Granwehr
Luis Clode
Mário Passos Freitas
Rui Olim
Rui Pinto da Silva
Nota:lista feita recorrendo apenas à minha memória que já começa a falhar
A Lei daVida encarrega-se de actualizar a lista dos 80 "setimanistas" 59/60 que, (segundo a minha memória) já abateu 25% nomes.
O último a ser riscado da lista foi o Josef Granwehr. A notícia que não me apanhou de surpresa, serve de pretexto para fazer renascer das cinzas o blog para falar do Granwehr, ou do Joe, como era conhecido pelos vizinhos e amigos da América.
Dispenso-me de recordar o Granwehr do Liceu, e lembrarei o Joe, reencontrado, há uma década, quando comemorávamos os 50 anos de "setimanistas".
De então para cá mantive com o Granwehr um contacto frequente.
Via Skype, o Vasco o Granwehr e eu, fizemos longas conversas. Falámos do Obama de quem, ele e a sua Mulher, Gabriela, foram uns apoiantes militantes. Mais recentemente, isto é, há cerca de três anos, o tema de conversa continuava a ser o mesmo, mas o apoio militante do casal passou para o Trump.
Eu, que não compreendia esta mudança, ficava com poucos argumentos para o contrariar, face aos exemplos que ele dava e à convicção profunda que ele tinha que a eleição da Hilary Clinton, teria sido muito pior para a América e para o mundo.
Mas as conversas com o Granwehr não se esgotavam na política. O Granwehr ficava empolgado quando falávamos ou melhor, recordávamos os nossos tempos de Liceu. Gostava que falássemos de cada um de nós e de todos. Terminava muitas vezes dizendo: Vocês (setimanistas 59/60) é que são os meus verdadeiros amigos.
Tive a oportunidade e o privilégio de visita-lo em Iowa, onde trabalhou e ao Missouri onde tinha uma "mansão" (não estou a exagerar) à beira dum lago belíssimo.
Em Iowa deu para perceber quem foi o Dr. Granwehr. Médico anestesista prestigiado num país , num Estado e numa especialidade que não era fácil um estrangeiro vencer. O Granwehr conseguiu, mas a sua modéstia impedia de exibir o sucesso profissional.
No Missouri onde, como dizia, tinha a sua casa do lago, o Granwehr passava a Joe. Aqui com a sua carrinha, com o seu tractor e com a sua moto-serra desbastava as árvores, alindava o jardim e sobretudo apreciava as aves que faziam daquela luxuriante vegetação a sua casa.
Nunca poderei esquecer as tardes que passámos (o Joe, a Gabriela a Teresa e eu) à volta de um barbecue, com vista para o lago, em conversas tão amenas e doces como a tarde que entretanto se despedia.
Fui tão bem recebido e tratado pelo Joe e pelo Granwehr que, apesar da muita insistência dele, não voltei a visita-lo. Não quiz que ele pensasse que estava a abusar da sua hospitalidade.
Na última conversa que tive, já este ano, o Granwehr fez uma confidência e um pedido.
Confidenciou que tinha um cancro no pulmão. Tinha acabado de reunir com a família. Evocando a sua experiência de médico e suportado na especialidade de um dos filhos (médico investigador em doenças oncológicas). A sua decisão que teve o apoio da família é que não queria ser tratado. Não queria abdicar dos seus prazeres, (fumar era um dos maiores).
Pediu-me que enquanto fosse vivo, não contasse ou comentasse esta sua decisão com ninguém.
O Granwehr, materializou o seu desejo. Eu cumpri o seu pedido.
Não sei se o Granwehr chegou a sofrer. Sei que morreu como quiz com a família à sua volta.
Vou ter saudades de ligar o Skype.